Rim to River to Rim Run

Chegamos ao Grand Canyon ainda a tempo de ver a luz rasante do fim de tarde incidir sobre o lado Norte do canyon. O cenário era brutal! Do sítio onde nos encontrávamos havia apenas uma distância de 16 km a separar-nos do outro lado do canyon. 1300 metros abaixo corria o rio Colorado. Decidimos dormir por lá e acordar a tempo de ver o nascer do sol. Combinamos que durante a manhã, enquanto a Vanessa e Tânia devolviam à cama o tempo de sono perdido, eu e o Caió iríamos dar uma volta pelo canyon.

Acordamos bem cedo. E cedo descobrimos que não éramos os únicos madrugadores. No dia de Páscoa é tradição celebrar-se uma missa no bordo do canyon. O céu estava nublado ao melhor estilo Um Anjo na Terra. A temperatura fazía-me ter saudades do casaco de penas deixado em casa.

Dei uma olhada pelo mapa e decidi-me pelo South Kaibab Trail. Havia vários avisos a alertar para o facto deste percurso não se tratar de um day hike. No entanto, era um percurso que facilmente me permitiria controlar o tempo de forma a não deixar ninguém à seca. O Caió iria fazer o percurso a pé encontrando-se comigo mais abaixo. Este percurso desce num zig zag ao fundo do Canyon permitindo ter uma perspectiva do Grand Canyon que normalmente não aparece nas revistas.

Pelas minhas contas deveria conseguir chegar ao Skeleton Point e, a partir daí, começaria a subir de regresso ao ponto de partida.

À medida que descia para o fundo do canyon a temperatura ía subindo na mesma proporção em que o rio Colorado se tornava cada vez mais largo. O que lá em cima parecia ser apenas um pequeno rio de águas bravas afinal era um rio com bastante caudal e com uma água de côr esverdeada.

Passo a correr por alguns trekkers. Olham para mim como se fosse uma espécie de alien. Será que ninguém mais corre por aqui?

Cheguei ao Skeleton Point antes do horário previsto. Havia tempo para descer um pouco mais. Decidi que iria continuar a baixar até o relógio me dizer que eram horas de track back.

Estava agora a menos de 300 m de desnível do rio Colorado. Via-se perfeitamente a ponte de cabos que permite a passagem para a outra margem. O Colorado deverá ser parecido àquilo que o Douro foi em tempos idos. Um grande rio cheio de rápidos que lhe conferem um carácter indomável.

Sabia que se tivesse mais meia hora conseguiria chegar ao rio e tocar “no fundo”. Mas não podia arriscar. Já tinha descido mais do que era suposto e se me atrasasse muito a Vanessa iria atirar-me pelo canyon abaixo. Fiquei com a sensação de que era um objectivo perfeitamente alcançável e isso já me deixava satisfeito. Maybe next time?!

Como alguns cereais do pequeno almoço que trouxe na mochila. Agora é sempre a subir! Não corro. Vou a passo rápido na tentativa de não parar até ao top. De vez em quando olho para o relógio para ver quanto tempo me resta. A coisa estava controladíssima…

Chego ao topo do canyon e dou de caras com um poster com a fotografia de uma corredora. Ponho-me a ler enquanto espero a chegada do Caió. É o relato de um acidente. Há poucos anos atrás dois corredores decidiram fazer este percurso. Era Verão. A corredora tinha feito a maratona de Boston umas semanas antes num tempo que rondava as três horas. Devido ao calor sentido no fundo do canyon a corredora começou a sentir-se mal. Estava desidratada. O acompanhante subiu o canyon à procura de auxílio. Quando a equipa de resgate encontrou a corredora esta já havia falecido.

Tento imaginar fazer esta subida com uns 38 graus. Dureza… E logo eu, que não me dou muito bem com as altas temperaturas… Não há água em todo o percurso. E a do Colorado também não deve ser grande coisa.

Uns dias depois de ter feito esta corrida vejo um post no FB da Trail Runner Mag com uma foto que me é familiar. É o mesmo percurso que eu fiz! Leio o post e descubro que a corrida tem o nome de Rim to Rim to Rim Run. Ou seja, parte-se do lado Sul do canyon até se chegar ao lado Norte e depois regressa-se novamente ao ponto de partida. Nessa mesma semana havia sido batido o recorde de tempo por uma dupla feminina.

Eu, sem saber, quase fiz o Rim to River to Rim!

Se alguém for para aquelas bandas aconselho vivamente.

Sem ser no Verão, claro!!!

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Um pensamento em “Rim to River to Rim Run”

  1. Quando a descida é longa, normalmente vem coisa dura pela frente. De qualquer forma, não me importava de experimentar esta tua aventura.

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