UTSF 2011

Eram 02h20 quando o despertador tocou. É hoje o dia! Fiquei satisfeito ao aperceber-me que havia dormido umas quatro horas seguidas. Já tinha preparado a mochila no dia anterior pelo que foi só o tempo de me vestir e tomar o pequeno-almoço. A primeira dose da super aletria deveria fornecer-me os hidratos de carbono suficientes para não ter me preocupar até ao quilómetro 20.

O Raposo apanhou-me em casa e de seguida apanhamos o Fofoni. Siga para a Freita que a festa vai começar!

Chegamos ao Merujal por volta das 03h45. Sentia-se o frenesim no ar! Toda a gente sabia aquilo que teria pela frente durante as mais de dez horas que se seguiam e o ambiente era de festa.

Tinha-me mentalizado que o meu primeiro objectivo seria o de acabar a prova, objectivo este que penso apenas não estaria ao meu alcance se me aleijasse ou se a temperatura subisse para lá dos 25º. Se tudo corresse bem deveria encaixar o meu tempo entre as 12 e as 14 horas de prova.

Eram cerca das 04h30 quando se deu a partida.

Logo nos primeiros quilómetros veio o primeiro momento de puro divertimento. Olhar para trás e ver um alinhamento de pontos de luz no meio da escuridão a movimentarem-se como uma serpente saída de um vídeo jogo dos anos 80. Esta serpente estava a perseguir-me! Era altura de começar a descolar…

Esta parte inicial do percurso havia-a realizado à cerca de três semanas com o Tó Zé pelo que me sentia a “jogar em casa”. A claridade começava a aparecer e verifico que o céu está nublado. Agradeço a S. Pedro ter ouvido as minhas preces enquanto desligo o frontal.

Antes de entrar na levada reparo que o percurso da prova não é aquele que eu estava convencido que fosse quando havia realizado o treino. Eu pensava que neste tramo o percurso da prova seria pelo meio do rio. Moutinho style. Há três semanas atrás o trilho da levada parecia a Amazónia pelo que tivemos de desistir dessa opção.

Passado Tebilhão ia entrar em terreno desconhecido. No treino que fizemos passamos de Tebilhão para o Candal para fazermos uma volta mais curta.

A descida pelo trilho do carteiro foi um hino à classe ortopedista. Non stop! Sabia que não podia entusiasmar-me pois a procissão, ou melhor, a via sacra ainda não tinha saído do adro.

Daí até Rio de Frades foi só deixar rolar. Pensar que ainda há dias atrás tinha estado lá em baixo aos saltos para a água com 36º de temperatura…

Ao chegar ao rio encontro os meus pacers estáticos. De máquina fotográfica em punho parecem verdadeiros predadores de imagens. Gostava de ficar ali com eles a descrever os caminhos já percorridos mas ainda vamos no primeiro terço da prova e importa não parar.

Entramos, literalmente, no Paivô. Sinto-me confortável nestes percursos em leitos de rio pois sinto sempre que estou a correr super leve. Estou mais habituado a andar por estes cenários com um fato de 5mm e uma mochila carregada de cordas e outros equipamentos.

No final do rio surgiu o primeiro abastecimento. Já aprendi, a custo, o quão importante é uma pessoa ir comendo e bebendo ao longo das provas. Nesta prova, de 5 em 5 km estava sempre a enfiar qualquer coisa pelas goelas abaixo para não ficar mal.

Uma vez mais encontro-me com o Fofoni e o Raposo. Tudo bem? Siga!

Sigo agora em direcção a Regoufe e daí sigo para Drave. Recordo-me que a última vez que fiz este percurso foi com o Marco Stanislau num fim de semana de calor brutal. Uma vez mais agradeço a S. Pedro.

A subida a seguir a Drave foi mental. Já não bastava o desnível do percurso acrescia agora a dureza da paisagem. Os incêndios do ano passado deixaram uma encosta martirizada.

Mártir também já eu me começava a sentir. E a minha cruz tinha três pás a girar lá bem no alto. Vento e nevoeiro. Comecei a sentir frio. Optei por não vestir o corta vento. Sempre era mais um motivo para me pôr a mexer.

As fitas sinalizadoras indicavam a direcção de uma última torre eólica. Onde anda o percurso? Um single track apareceu à direita e daí até Póvoa das Leiras foi sempre a baixar.

Novo abastecimento. A fome aumentou. 40 km feitos. Faltam 30. Sigo para o abastecimento dos 50 km em Manhouce. A partir deste momento apenas penso em chegar ao abastecimento seguinte.

No meio de um caminho encontro o Fofoni disfarçado de paparazzi. Um pouco adiante está o Raposo. Combino um próximo encontro na Lomba.

Entro numa aldeia. Reconheço as ruas.Estou no Candal! Soube que a coisa estava feita. Estava a correr novamente em terreno conhecido. Traço mentalmente o percurso que falta fazer para gerir o esforço. Sei que tenho a subida da Lomba e que chegando ao planalto da Freita é mais meia hora menos meia hora de prova.

Chego a Manhouce. Não resisto. Café! Preciso de um café! Vou ao tasco e injecto pela garganta abaixo a dose de cafeína que necessitava. Logo a seguir encontro o abastecimento.Dizem-me que na Lomba têm sopa quente à nossa espera. Melhor objectivo que este? Siga para a Lomba!

O percurso da prova para chegar a Lomba é mais cómodo do que aquele que havia feito anteriormente. Sinto que as coisas vão sendo mais pacíficas do que aquilo que eu pensava.

Aterro finalmente na Lomba. Enfardo uma canja, uma bifana, dois copos de coca-cola, batatas fritas, tomate, melancia, enfim… Atesto o depósito. Troco de relógio com o Fofoni. A bateria do meu relógio só dura 10 horas e esta deve estar quase a ir-se…

Começo lentamente a subida da Lomba. Com o percurso marcado aquilo parece uma auto-estrada. Só de pensar que durante o treino andei para ali no meio do mato… Faço a subida com um ritmo lento mas sem paragens. Foi algures aqui, durante o treino, que percebi que teria mesmo de comprar uns batons de trail.

OK, agora é só seguir pelos PRs que a coisa está feita. Sigo para Castanheira onde se situa o último abastecimento. Não me demoro (ainda estou sob o efeito da canja). Começa a descida em direcção ao rio e começam também as dores no meu joelho direito. Menos mal, penso eu. Estamos a 5 km do fim. Agora, nem que seja ao pé coxinho!

Com a subida as coisas melhoram. Não sinto as dores. Sigo com a Júlia e com o Abel Benito a um ritmo lento mas constante. Chegado ao alcatrão encontro o pessoal no miradouro. Agora é só deixar rolar até ao Merujal…

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