Lost City of The Incas

Não resisti. Comprei mais um livro. Lost City of The Incas, escrito por Hiram Bingham, o americano que descobriu Machu Picchu. Publicado pela primeira vez em 1952 este livro relata, na primeira pessoa, todo o processo de descoberta e exploração arqueológica realizada em Machu Picchu.

É um misto de literatura de viagem com romance histórico. O estilo é empolgante e envolvente. Estou ainda no início desta aventura. Desculpa lá Karnazes mas o Run vai ter de esperar…

Going down!

O dia começou cedo. Saí de Águas Calientes e fiz a subida até Machu Picchu a pé. Demorei um pouco mais que uma hora mas foi o suficiente para chegar a pingar. Apesar de ser muito cedo a temperatura deveria rondar os 18 graus. A humidade, essa sim, deveria andar nos 80%.

Depois, conforme planeado, subi com a Vanessa ao Wayna Picchu. Já sentia os gémeos. Bom sinal. Baixamos até Machu Picchu. A Vanessa apanhou o bus até Águas Calientes. Eu iria aproveitar para enfiar mais alguns quilómetros nas pernas.

Preferi baixar pelo estradão por onde sobem e descem os autocarros de acesso a Machu Picchu. Segundo o guia a distância por estrada até Águas Calientes era de 7 km (na realidade foram 9 km). Se baixasse pelo caminho por onde havia subido de manhã iria percorrer uma distância menor e iria destroçar os joelhos.

Assim, foi sempre a descer… Para a frente e para trás…

De vez em quando lá passava por mim um autocarro. Numa das curvas, tal era o zigzag, consegui mesmo ultrapassar um!

Vou olhando para o Putucusi, a elevação à minha frente, e vou observando a diminuição de cota. Está abafado. À minha volta só vejo verde e o estradão de terra batida. Lá em baixo vejo os comboios estacionados no fundo do vale. O barulho das águas bravas do rio Urubamba vai aumentando de volume.

Finalmente aterro em Águas Calientes. Penso na diferença que a altitude provoca no esforço.

PS: escrevo este post no comboio que faz a ligação Águas Calientes – Cusco. No banco ao lado está um casal que, de x em x tempo, vai inalando pequenas porções de Oxi Shot, um spray de inalação com O2 que se vende por aqui nas farmácias. Acho que em algumas provas um shot destes ía saber mesmo bem…

Já anoiteceu. A carruagem está cheia de melgas, pequenos mosquitos e borboletas. A luz do ipad atrai a bicharada. Acho que vou desligar…

Machu Picchu

Uma vez mais Franco apanha-nos no hotel para nos levar até à estação ferroviária de Poroy, a cerca de 20 minutos de Cusco. Às 07:42 partíamos no Expedition 31 em direcção a Machu Picchu. À medida que o comboio se afasta de Cusco a paisagem vai-se tornando cada vez mais montanhosa e verdejante. A linha acompanha o vale por onde flui o Urubamba, sempre a perder altitude. Este rio passa também por Águas Calientes, aka Pueblo de Machu Picchu, indo acabar por desaguar ao Rio Amazonas.

A vista desde o fundo do vale é assombrosa. Sentimo-nos minúsculos ao percorrer este caminho. A vegetação que cobre as escarpas torna impossível a imaginação de uma linha que permita aceder ao cume destas montanhas. Estamos na selva.

Ao fim de três horas de viagem chegamos ao nosso destino. A melhor forma de descrever a chegada a Águas Calientes é imaginar que saem do Vouguinha no meio do recinto da feira de Espinho numa segunda-feira. Nem sequer conseguimos perceber para que lado é que temos de ir tal é a quantidade de toldos, bancas, quinquilharia,… Seguimos sempre em frente na esperança de ir dar a alguma rua. Depois de alguma procura lá encontramos o hotel. O plano das festas para hoje era simples: comer, apanhar o bus para Machu Picchu, perdermo-nos nas ruínas e baixar até Águas Calientes a pé.

Depois de comermos o prato típico de Águas Calientes, pizza, apanhamos o bus que parte de 10 em 10 minutos rumo a Machu Picchu.

O único encanto de Águas Calientes é o facto de não existirem automóveis. Os únicos transportes que cá existem são o comboio e os autocarros ecológicos que fazem a ligação até Machu Picchu. Fora isso temos de olhar para cima para nos apercebermos da magia natural deste local.

Na subida em zigzag pelo estradão começamos a vislumbrar o recorte dos socalcos, bem lá no alto da montanha. Entramos no recinto do complexo arqueológico e ao fim de uma centena metros temos à nossa frente a imagem que nos vem à memória sempre que nos lembramos de Machu Picchu. É verdade. Vale mesmo a pena. Para além das ruínas o que mais impressiona é a localização e a paisagem. As ruínas estendem-se sobre uma cumeada rodeada de um vale encaixado. Lá em baixo o Rio Urubamba rodeia toda esta elevação. Olhando em redor facilmente se percebe que este é um lugar único, acessível apenas aos conhecedores dos caminhos que se ocultam por debaixo desta vegetação.

Decidimos continuar a subir até Intipunko, a Porta do Sol. Para lá chegar percorremos os últimos dois quilómetros do Inca Trail. O percurso é bastante acessível sendo o caminho realizado ao longo de degraus em pedra de dimensões variáveis. É sobre o Inca Trail, parte do caminho de ligação de Machu Picchu a Cusco, com cerca de 43 km de extensão, que se realiza a Inca Trail Marathon. Esta será uma das próximas provas do Kilian Quest.

Desde Intipunko é possível ver toda a extensão do complexo arqueológico. Deve ser uma vista espectacular para quem acaba de correr mais de 40 km acima da cota dos 2000 m.

Regressamos a Machu Picchu para nos perdermos por entre o labirinto de construções que compõem o aglomerado. Entretanto, ouvem-se ao longe os trovões. É altura de baixar.

Apanhamos o caminho que segue para Águas Calintes. Basicamente é uma escadaria em zigzag que nos leva até à cota do rio e daí até Águas Calientes.

Banho. Jantar. Cama.

04:30. O telemóvel desperta. Showtime! Visto-me e calço as sapatilhas. Roubo dois pães do pequeno-almoço ao passar pela entrada do hotel e rapidamente me ponho na rua. Cai uma chuva miúdinha. Não se vê vivalma. Ligo o frontal e sigo pelo estradão de terra batida em direcção a Machu Picchu.

05:00. Passo pelo posto de controle de acessos a Machu Picchu situado antes do atravessamento da ponte. Pedem-me o bilhete de entrada e o passaporte. Tudo OK, siga! Começo a subir devagar pois já conhecia o que me esperava. Pensei que iria encontrar mais pessoas com a mesma ideia que eu tinha: ver o nascer do sol lá em cima. Os ruídos produzidos à noite no interior daquela selva são dignos de qualquer Jurassic Park.

A meio da subida ouço o som de algo a mexer-se algures à minha frente. Que bicho será? Uns segundos depois ouço novamente o mesmo ruído. Olho para cima e vejo um ponto de luz a cintilar na escuridão. Afinal não estou sozinho! Acelero um pouco o passo e vejo tratar-se de uma rapariga com um frontal. Cumprimentamo-nos e continuo a subir. Uns metros mais à frente ultrapasso outros dois gajos. A luz começa agora a querer aparecer. Uma ligeira névoa ajuda a criar uma atmosfera mística.

Chego à entrada do complexo arqueológico e aguardo uns minutos até que as portas se abram. Aos poucos vão chegando outros madrugadores que também fizeram a subida a pé. Os rostos vermelhos são a prova da conclusão deste quebra costas.

As portas do recinto abrem-se e dirijo-me para o local onde combinei o encontro com a Vanessa. Sento-me numa rocha e tento imaginar como seria a vida neste local, isolado de tudo mas ao mesmo tempo rodeado de uma beleza natural única. As ruínas estão desertas. Num par de horas centenas de pessoas irão percorrer estas escadarias.

Entretanto chega a Vanessa. Resolvemos fazer uma visita guiada ao complexo arqueológico enquanto esperamos pelas 11 horas, hora em que teremos acesso ao caminho que nos conduzirá ao Huayna Picchu.

A Vanessa já estava convencida a ir no momento em que resolve perguntar à guia como era o percurso até ao cume. Camino aéreo con cuerdas. Cuerdas? Que cuerdas? Combinamos que caso a coisa começasse a ficar mais complicada ela baixaria e encontrarnos-íamos em Machu Picchu.

Ás 11 horas lá começamos a subir. Step by step. Sem pressas. A vegetação que embrulha o single track disfarça o abismo que nos rodeia. Uma asiática que se encontrava a fazer já a descida patina num degrau e manda um tralho mesmo à nossa frente. A Vanessa arregala os olhos. Isto a descer é que vai ser bonito! – diz ela. Sem stress… – respondo eu.

Continuamos a subir e começamos a vislumbrar os muros das primeiras ruínas. Algumas das escadas são tão íngremes e têm os degraus tão curtos que já utilizamos as mãos para nos equilibrarmos. Algumas das subidas têm cordas fixas de facto. A parte final do caminho passa por dentro de uns blocos de rocha de onde saímos através de escada de madeira. Chegamos! Estamos no topo!
Machu Picchu vê-se agora lá em baixo com as suas ruínas minúsculas. Partilhamos uma banana enquanto contemplamos o vazio que nos circunda.

Começamos a baixar. Como era suposto, agora é que ía ser. Estes incas eram completamente atrofiados. Aos poucos lá fomos destrepando pelos degraus. A Vanessa… concentradíssima sócio!

Fomos descendo devagar até aterrarmos novamente em Machu Picchu. A Vanessa já tinha tido o seu shot de adrenalina pelo que resolveu baixar até Águas Calientes no shuttle. Para aproveitar o facto de estar num local elevado resolvo descer a correr. Tenho de meter kms nestas pernas que a temporada das maratonas está aí a chegar…

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Gastón Acurio é Chicha

07h30. Como combinado Franco espera-nos à porta do hotel. Seguimos para Sacsaywamán. Daquilo que resta deste monumento ficamos com a noção de que quando os espanhóis cá chegaram devem ter-se sentido uns meninos no que se refere a construir alvenarias de pedra. Os blocos são, de facto, enormes e parecem ter sido cortados a laser. Foi uma boa opção termos vindo cedinho. Arranjamos um guia que, depois nos apercebemos, devia estar a ressacar e com dores. A Vanessa avista ao longe um gajo a correr por umas escadas no interior do espaço arqueológico. Acho que já encontrei um local para a corrida ao final da tarde…

red alert A minha máquina fotográfica está com Parkinson! O motor da objectiva parece uma batedeira eléctrica e a imagem do visor treme. Será que se eu desmontar a máquina consigo pô-la a funcionar? Vou tentar resistir a esta tentação…

Próxima paragem: Q’ enqo. Neste local baixamos às entranhas da terra para observar um local onde eram praticados os sacríficios em honra das divindades Incas. A rocha calcária faz-me lembrar os afloramentos da Redinha.

Seguimos depois para Puka Pukara. Um guia interpela-nos dizendo que nos dá algumas informações sobre o local de borla. Se é grátis, siga! Para além da arquitectura, Puka Pukara tem, acima de tudo, a sua importância derivada da localização geográfica em que se encontra. Aqui, as correntes energéticas da Terra propiciam um estado extra-sensorial. Ficamos com a sensação que se não fosse o guia passaríamos tudo ao lado.

Solamente por más diez soles vos darei más informaciones OK, não há dúvida que para além do misticismo do monumento apelar a um sexto sentido, a verdade é que o sentido comercial do gajo já se encontra bem apurado. Aceitamos a proposta.

Sentamo-nos na plataforma onde, supostamente, eram realizados os ritos em que os jovens Incas das classes superiores recebiam o abraço da Pacha Mama, a Mãe Terra, e acediam a um estado de conhecimento mais elevado. Para os Incas, a valorização das pessoas era realizada de uma forma qualitativa, sendo reconhecidas aquelas cujo carácter, conhecimento, destreza física ou capacidade administrativa se evidenciavam. Dizem eles…

O próximo local a visitar fica apenas a umas centenas de metros pelo que resolvemos ir a pé. Combino com Franco o local para nos recolher. Tambomachay foi um templo dedicado à veneração da água enquanto fonte de vida e elo de ligação com os espíritos que vivem no seio da Terra. O templo tem a forma de um altar e, na minha opinião, tem tudo desenhado para cumprir essa função.

Regressamos a Cuzco para almoçar e visitar o centro do mundo. Depois de vaguear pelas ruelas à procura dos restaurantes aconselhados pelo Lonely Planet resolvemos ir ao Chicha – Cuzco. Este restaurante é de um dos Chefs mais conceituados da nova cozinha peruana, Gastón Acurio. Só podemos dizer uma coisa: como experiência sensitiva não fica nada atrás de Tambo Machay.
Entramos logo a matar com dois cocktails que nos conduziram a um estado de quase transe…
A comida essa, espectacular! Pagamos o equivalente a uns setenta euros, os dois, mas é unânime a valia do investimento.

Enquanto almoçamos cai uma chuvada, daquelas a sério, com direito a granizo e tudo! Menos mal, se o tempo não melhorar podemos sempre passar a tarde a beber cocktails…

Depois do almoço só me apetecia meditar sobre a condição humana. Parou de chover. A Vanessa conseguiu arrastar-me para o centro de Cuzco. Vagueamos por mercados, ruas e lojas. As lojas do centro de Cuzco estão claramente voltadas para o mercado americano e inglês. Ainda por cima estes gajos olham para mim e pensam logo que eu venho de um desses países.

De regresso ao hotel aproveito para fazer o upload de algumas fotos. Ainda me sinto sob o efeito sedativo do almoço. Hoje já não há corrida para ninguém…

PS: O blog conta agora com a participação de uma reviewer especial…

Cristiano Ronaldo. Metrosexual!

Eram 06h45 em ponto quando o táxi chegou ao nosso hotel. Tínhamos de ir até ao centro de Puno apanhar o bus que nos levaria até Cusco com umas paragens pelo caminho.

Às 07h30 já rolávamos rumo a Pukara, a primeira das paragens. Em Pukara visitamos o Museu que guarda algumas peças de civilizações pré-inca. Compramos pipocas e seguimos viagem.

A passagem pelo colo de La Raya (4335 m) marca a passagem de uma paisagem característica do altiplano andino para uma sucessão de vales cultivados. O amarelo dourado da vegetação rasteira dá lugar ao verde dos campos de cultivo salpicados por alguns eucaliptos.

Depois de almoçarmos em Sicuani seguimos para Raqchi. Trata-se supostamente de um antigo templo inca dedicado a Wiracocha (não confundir com Iran Costa, o do Bicho).

A última paragem antes de Cusco foi em Andahuaylillas para visitar a Igreja de S. Pedro, aka la capilla Sixtina de América. Trata-se claramente de uma questão de gestão de expectativas. Se não tivessemos ouvido essa coisa da Capela Sistina provavelmente teríamos apreciado mais este monumento.

Last stop: Cusco, ou melhor, o Centro do Mundo (pelo menos para os incas).

Apanhamos um táxi para o Hotel. Como habitual meto conversa e nada melhor do que falar de assuntos de interesse mundial para quebrar o gelo. Futebol.

Cristiano Ronaldo? – Pergunto eu.

Metrosexual – Resposta imediata de Franco, o taxista.

Messi vrs. Cristiano. Messi 2 – Cristiano 0. Estamos de acordo.

Amanhã a conversa continua.

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Criança é = em todo o Mundo

Mal entramos no recinto onde se encontram as ruínas de um antigo templo inca dedicado à fertilidade aproxima-se de nós uma miúdita de seis anos e dispara – Voy a ser la vostra guia!

Quando demos por ela já estava a pequena inca a debitar a cassete formatada marcando o ritmo da nossa visita e nós a correr atrás dela. Com uma vózinha de boneco animado de domingo de manhã do antigamente a pequena Lady (foi assim que disse se chamar) mantinha nossa atenção presa, não pelo teor do seu discurso mas sim pela forma como encarnava aquela personagem.

Entretanto no interior do recinto vários grupos de crianças brincavam. Fomos parar junto de um grupo de miúdos que jogavam futebol. Passados cerca de cinco minutos tínhamos aquela miudagem toda à nossa volta a bombardear-nos com perguntas. Que legumes se comem em Portugal? Como se chama o Presidente de Portugal? Sabes nadar? Existem tremores de terra em Portugal? Qual é a tua comida preferida? Tens namorada? Quantos anos tens? Já foste ao Brasil? Sabes falar Inglês? Qual é a moeda de Portugal? Sabes anedotas? Há balões de água em Portugal? Quantos pisos tem a tua casa? Quanto tempo demora a viagem de Portugal até cá? Que desporto praticas?…

O interrogatório só terminou quando o professor chamou aquela pequena multidão. Mas ainda houve tempo para uma fotografia de grupo. Whiskyyyyyyyyyyyyyyyyy

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Titikaka

Resolvemos não pôr o despertador a acordar-nos. Acordei eram 06h30! O sol já nos iluminava o quarto com vista para o lago Titikaka. O plano para hoje era simples: tomar o pequeno almoço, comprar a viagem de Puno para Cuzco, visitar as ilhas flutuantes de Uros, almoçar em Puno, visitar o templo de fertilidade em Chucuito e passar o final da tarde a ler (Vanessa) e a correr (eu).

Conforme recomendado pela Lonely Planet planeamos fazer a viagem para Cuzco no InkaExpress que é um autocarro turístico que faz algumas paragens ao longo do percurso para visitar locais históricos ou, mais frequentemente, para nos tentarem vender mais alguma quinquilharia andina.

Agotado. E agora? A alternativa é viajar numa outra companhia que segundo nos dizem presta o mesmo serviço que o InkaExpress. Assim seja.

Seguimos em direcção ao porto de Puno onde apanhamos o barco que faz a ligação até às ilhas flutuantes de Uros. O aglomerado de pequenas ilhas artificiais tem bastante piada e o cenário remete-nos para um imaginário de uma civilização perdida no meio de um imenso lençol de água. Porém, tudo aquilo é na realidade uma grande encenação para turista ver e, se possível, deixar lá uns quantos nuevos soles. Será legítima esta recriação? Se pensarmos bem a diferença entre andar a passear numa destas embarcações feitas de palha e subir o Douro num rabelo a motor não é assim tanta…

Fizemos bem em ter ido apenas visitar um dos conjuntos de ilhas. Se tivéssemos seguido um tour turístico ía-mos ficar fartos de ver tanta palha num dia só.

Em Puno seguimos a sugestão do Lonely Planet e fomos almoçar ao Colors. Não foi nada de especial… Tanto que resolvemos ir tomar café a um outro sítio que, descobrimos depois, era o nr one do tripadvisor em Puno.

Puno não é uma cidade bonita. Segundo a Vanessa Puno x 3 = Cidade indiana.

Demos um passeio pelo centro e foi qb.

De regresso ao hotel fomos tratar da reserva da viagem de comboio Cuzco / Águas Calientes / Cuzco. Tava difícil! Não conseguíamos fazer a reserva on-line porque dava um erro no pagamento com VISA. Fiz a reserva por telefone. Acho eu!

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Sinto-me asmático

Final de tarde. As nuvens reflectem os últimos raios de sol. O vento sopra e sente-se o gelar das mãos. Tenho de ir correr. Se não o fizer sei que irei penar daqui a uns dias no K42. As dores de cabeça já me passaram e sinto-me como se estivesse a sair de casa.

O único sítio onde posso correr é ao longo da Panamericana Sur, estrada que liga o Perú à Bolívia. Esta estrada bordeja o Lago Titikaka. O Menezes bem que podia vir aqui fazer um workshop sobre passadiços e arranjos urbanísticos.

Começo a correr. Ao fim de 500 m a passo de caracol já estou a bufar. Sigo na direcção de Puno. A estrada é plana. Estou a cerca de 3900 m de altitude. Sinto o vento frio nas mãos. Tento acelerar o ritmo para aquecer. Ao final do primeiro km sinto-me melhor que na última corrida.

Para além da carência de O2 tenho o incremento de CO e de CO2. Sinto-me a correr na Nacional 1. Os faróis dos camiões fazem-me perder a visibilidade por breves instantes.

Quase a chegar ao km 3 aparecem-me uns cães. No stress. Pelo tamanho não impõem grande respeito. Isto até ao momento em que vejo um cão a ladrar a vir disparado na minha direcção. Tou f*****! Continuo a correr sempre a olhar para trás com o olhar fixo nos dentes arreganhados e na baba pendurada no focinho da besta. Tou f*****!

Virei-me ao animal aos berros e com os braços no ar. Ficamos a olhar um para o outro a medir forças. Ganhei! Mal nos distanciamos uns 10 m peguei logo em duas pedras pelo sim, pelo não.

Voltei para trás. Não me apetecia ter muitos mais destes encontros com a vida animal.

Quase a chegar ao ponto de partida dou por mim no seguinte estado: dores musculares, nada; cansaço físico, nada; correr, nada! Sinto-me impotente. As pernas não andam mais rápido. Pareço um asmático.

Decido então fazer umas rampas curtas mesmo em frente do hotel. Fiz uma! Desisto.

Estas corridas têm servido para elevar a minha consideração pelos praticantes de alta montanha.

É brutal!

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Condores de cabeça

Saímos do Refúgio del Colca eram 06:30. A primeira paragem foi a aldeia de Yanque, a mesma que havia visitado no dia anterior durante a corrida. Seguimos ao longo do canyon del Colca em direcção à Cruz del Condor, o spot preferido da bicharada.

Este canyon, apesar dos seus 4000 m de desnível, não é tão espectacular como o Grand Canyon. A morfologia e as cores do Grand Canyon acho que o tornam, sem dúvida, numa das maravilhas naturais do mundo.

Mal avistamos o miradouro da Cruz del Condor vê-mos logo uma meia dúzia de condores a planar à mesma cota do bordo do canyon. OK, é verdade, são mesmo grandes. Podendo atingir 2,8 m de envergadura e pesar até 14 kg estas gaivotas dos andes são mesmo muito grandes. Passamos uma hora a observar os vôos destas aves sagradas ao sabor das térmicas que sobem pelo canyon.

Regressamos a Chivay para almoçar e trocar de minibus. Seguimos em direcção a Puno. Neste trajecto passamos outra vez por um colo aos 4800 m. Começam-nos a aparecer novamente as dores de cabeça. Tenho dúvidas se será devido à altitude ou à ressaca pela falta da dose diária de cafeína… Os sintomas são os mesmos.

Seguimos sempre acima da cota dos 4000 até a um lago cujo nome não me recordo. Aí avistamos flamingos e mais passarada. O vento e a temperatura lembram-nos da altitude a que nos encontramos. Logo de seguida paramos num lago de altitude superior ao Titicaca – Laguna Lagunillas.

Passamos em Juliaca e daí seguimos para Puno. Em Puno foi só o tempo de saltar para fora do bus e entrar num táxi para nos levar ao Hotel que se situa a 18km de Puno.

Mate de coca, rebuçados de coca, folhas de coca… Chegou agora a vez do Ben U Ron!

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Correr a 3400 m cansa!

Desde o AXTrail que não fazia nada. Hoje foi o dia de regresso aos treinos. Perguntei na recepção do Refúgio del Colca por caminhos aqui à volta mas fiquei na mesma. Resolvi então correr na estrada que liga Chivay a Cabanaconde e que acompanha o Canyon del Colca. Os 10km que queria fazer deveriam chegar para ir até Yanque e regressar.

Ao final do km1 o batimento cardíaco já ía nos 160 bpm a correr em plano! Ao km2 começa-me a doer a cabeça… OK, então é isto!

Continuo a correr a um ritmo ultra lento. Entro em Yanque e atravesso a praça em direcção à entrada da Igreja. Paro um minuto para tirar fotos e começo a correr de volta ao Refúgio. A dor de cabeça mantém-se. Se tento acelerar o ritmo os pulmões começam a saír-me pela boca. Parece que corro com cinco quilos amarrados a cada perna num domingo de ressaca…

Demorei mais de uma hora para fazer 10 km. Isto de correr cá em cima não é nada fácil, não…

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Colca Canyon

Saímos hoje de Arequipa às 08h30. Como queremos amanhã ir dormir a Puno juntamo-nos a tour turístico que, partindo de Arequipa, nos leva até ao Colca Canyon com uma dormida em Chivay (3633m). Durante o percurso até Chivay passamos em Patapampa. Sinto-me um bocado triste por alcançar a cota dos 4800m nas traseiras de um minibus… C’ est la vie…

Comprei umas folhas de coca para mascar. Como não senti nada durante a viagem acabei por não as utilizar. A Vanessa ainda sentiu uma leve dor de cabeça mas penso que será ressaca dos cafés e não mal de altitude.

A paisagem é um misto de Alpes, Açores e Patagónia. Agreste qb. Dá vontade de escolher um dos cumes nevados lá ao longe e começar a andar na sua direcção (OK, à Vanessa não dá vontade nenhuma).

As pessoas são simpáticas, de sorriso fácil e muito atenciosas. A vida aqui não é fácil. A Natureza é áspera e desumana. Só mesmo a teimosia do Homem, das Lamas e das Alpacas para se aguentarem nestas terras do Demo.

Estamos agora no Refúgio del Colca (3380 m) onde iremos pernoitar. Não é todos os dias que aclimatamos numa piscina termal a mais de 35 graus com vista para um canyon. O sítio é melhor do que aquilo que estávamos à espera. Quando chamaram os nossos nomes para sermos apeados do minibus nem queríamos acreditar! Porreiro, pá!

Amanhã temos o transporte marcado para as 06h30. Vamos até à Cruz del Condor ver se vêmos algum condor. Depois teremos de passar novamente por Chivay para mudar de transporte e seguir em direcção a Puno.

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Arequipa, la Ciudad Blanca

Saímos do Porto às 20:20 de segunda-feira. Primeira paragem: Madrid. Este aeroporto faz-me lembrar corridas… Próxima paragem: Lima. Aproveitamos a viagem transatlântica para pôr o sono em dia. Destino final: Arequipa. Aterramos eram 10:30.

Ainda do aeroporto avisto o El Misti. Um cone vulcânico com um pouco mais de 6800 metros de altitude. Trata-se de um trekking peak sem grande dificuldade técnica mas cujo perfil faz lembrar o Monte Fuji. Se houvesse mais tempo…

Apanhamos um táxi para nos levar ao hotel. Aproveito para meter conversa. Os taxistas são sempre óptimos barómetros sociais. Para ele, as coisas no Peru vão bem. Podiam estar melhores mas vão bem. Há trabalho, estabilidade e construção. Em Arequipa acabaram-se de se construir três moles (moles em peruano quer dizer mall em inglês).

Passamos no hotel para deixarmos as mochilas e seguimos em direcção ao centro histórico. Uma brisa temperada varre-nos a cara. A luz da cidade invade-me o cérebro e põe-me logo a espilrar.

Para almoçar seguimos a selecção da nossa agência de viagens -Lonely Planet – e vamos ao Chichas. Gostei!

Os cocktails bebidos ao almoço começam a fazer efeito. O sono apodera-se do meu ser… Coca, para quê…

Temos de nos pôr a andar! Vagueamos pelo centro histórico por entre mansōes coloniais e restaurantes top. Arequipa é uma cidade calma e bastante simpática. As recordações da viagem à Índia colocaram a fasquia do caos bem lá para cima.

Ao final da tarde fomos visitar a Juanita. A pequena Inca de doze anos de idade de idade que, na realidade, já passou dos quinhentos graças ao congelamento do seu corpo. De facto (continuo a não gostar do de fato) está bem conservada.

O sol já se tinha posto quando fomos visitar o Monasterio de Santa Catalina. Tivemos sorte porque era o dia em que o monumento iria permanecer aberto até mais tarde. Este complexo encerra uma cidadela dentro da própria cidade. Deixamo-nos perder deliberdamente no seu interior, iluminados apenas por candeias e velas, de claustro em claustro, tentando recriar o ambiente aqui vivido em tempos idos. As cores das pinturas das paredes são fantásticas. Branco cal, vermelho terra e azul cobalto.

Da visita a Arequipa, Património da Humanidade, fico com a ideia de um grande cuidado na preservação do património embora tenha algumas dúvidas na salvaguarda das questões relacionadas com a autenticidade. Por outro lado, sinto que existe um grande orgulho pela forma de construir e pelos materiais utilizados nas construções mais antigas. A adjectivação branca refere-se não à pintura dos paramentos das construções mas sim à utilização de uma pedra volcânica de cor clara -sillar- nas alvenarias. O recurso à construção com arcos e abóbadas constitui também um importante marco do ponto de vista da tecnologia da construção. A ponte metálica construída sobre o Rio Chili também é um ponto de passagem obrigatório nos tours de Arequipa. Para quem conhece o Porto e as suas pontes não necessita de por lá passar…

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Amanhã seguimos para o Canón del Colca. Vamos para o reino dos condores!

 

AXTrail #03 Serie – Uma corrida a Fajões

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O percurso prometia: 35 km mais ou menos planos, uma subida demolidora no final e uma passagem de 3,7 km no interior de um túnel.

05h30: Acordo, ou melhor, saio da cama.

06h00: Apanho o Fofoni.

06h…: O Raposo apanha-me algures na A1.

08h30: Chegamos a Fajão.

10h30 aprox.: Partida!

Eu, o Fofoni, o Bruno e o Raposo chegamos juntos ao primeiro abastecimento. Logo a seguir era a entrada no túnel. Se por um lado a água fria ajudou a baixar a temperatura corporal, por outro penso que terá sido responsável pelas cãimbras que muitos dos corredores sentiram nesta prova. Penso que se esta passagem fosse de apenas 1 km era espectacular. Com 3,7 km, a meio do percurso, OK, I get the picture!

PARENTAL ADVISORY: EXPLICIT SEMANTICS!

Depois do túnel tive de descarregar as duas dragas que trazia nos pés. A partir daqui fiz o resto do percurso com o Raposo que foi uma das vítimas da água fria. Até ao início da descida não achei grande piada ao percurso. Prefiro trilhos mais técnicos e desnivelados a estradões papa quilómetros.

No segundo abastecimento o Raposo aproveitou para tirar as sapatilhas e eu aproveitei para me abastecer. Acho que engordei neste abastecimento! Bebi e comi demasiado o que fez com que o arranque para a subida final me custasse um pouco. Atravessado o rio foi subir, subir, subir… Pelas minhas contas teria ainda de subir até ao marco geodésico que se via à direita pelo que foi com alguma satisfação que vi uns corredores da frente a baixar pela esquerda já em direcção a Fajão. Daí à meta foi só deixar rolar…

O Bruno esteve em grande no seu primeiro grande trail! O Fofoni,… avariado intestinalmente.

Saldei a minha dívida com o Raposo já que no ano passado em Sicó foi sobre mim que as cãimbras e o desânimo abateram e foi ele que me rebocou até à meta.

Chegar ao fim nestas condições é o que se chama Superação. Que o diga o Fran!