Todos os artigos de João Graça

“Levanta-te e anda”, Atos 3:6

Milagre! Estou curado! Depois de um mês alimentado a sulfato de glucosamina pude finalmente fazer uma corrida sem que a banda sonora vinda do joelho direito me lembrasse que isto da corrida não dá saúde a ninguém. No more trac, trac, trac…

Talvez tenha sido o resultado da combinação das propriedades terapêuticas da lama, dos ares frescos da serra, da fisioterapia aplicada durante as subidas, juntamente com os benefícios da acupunctura involuntária com o recurso à flora local.

O Trilho dos Abutres, nesta versão de 45K, não desiludiu. Depois de ter participado na corrida do ano passado pensei que o aumento da distância seria realizado à custa de um percurso com menor qualidade. Muito pelo contrário! O percurso deste ano foi espectacular! 45K de trilhos variados, paisagens a perder de vista, vales encaixados, … enfim, que mais se pode querer num dia em que até a meteorologia parecia ter sido programada.

A organização da prova esteve, uma vez mais, de parabéns. Obrigado por me ter proporcionado esta viagem de descoberta pela Serra da Lousã, mesmo nos seus recantos mais escondidos. Os Abutres voam cada vez mais alto…

Agora que foram descobertas as propriedades milagrosas deste trilho procurarei, todos os anos, realizar uma espécie de peregrinação.

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Até a sessão de crioterapia involuntária no final da prova, que no momento me pareceu um sacrifício, vejo-a hoje como uma dávida para o processo de recuperação muscular. Hoje vou colocar um pouco de gelo no joelho. Está a nevar a potes aqui em Bruxelas e vou correr de calções ; )

2012 – Odisseia x 2

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2011 foi um ano fantástico. Foi o ano em que enfiei uma argola metálica no dedo juntamente com a única mulher do mundo que tem paciência para me aturar. Foi um dia especial do qual certamente nunca me irei esquecer. Foi também o ano em que fiz a minha primeira ultra maratona e saí dela com vida. O vício apoderou-se de mim. Tomei o gosto às endorfinas.

Mas o grande acontecimento de 2011 prevê-se que se concretize em Maio de 2012. Vou participar numa das mais duras provas físicas e mentais que alguma vez existiram. A logística é complexa, o trabalho de equipa será fundamental e a capacidade de resistência será explorada ao limite. Sempre em carga. Sempre atento. Non stop. Mas como em todas as provas o mais importante é não desistir, olhar para os obstáculos com o pensamento que sim, que é possível vencer, e usufruir de todos os momentos na plenitude.

Daqui a um par de anitos espero voltar às provas de trail. Nessa altura, se tudo correr bem, poderei ter inscrito na t-shirt:

YOU CANNOT SCARE ME. I HAVE TWINS!

Um 2012 cheio de desafios para todos!

 

Programa das Festas para 2012

Aqui estão os projectos para o próximo ano:

JANEIRO

14 – Oh Meu Deus, Proença-a-Nova, 60 K

28 – Trail dos Abutres, Lousã, 45 K

FEVEREIRO

11- Galicia Máxica Night Trail

26 – Trail Conímbriga

MARÇO

10 – Oh Meu Deus, Guarda, 60 K

24 – Transgerês, ?? K

ABRIL

1 – Trilhos de Almourol, Abrantes

15 – Ultra Trail Sesimbra

MAIO

5 – Oh Meu Deus, Estrela, 104 K (?)

Fell Race 2011, Serra da Freita

Uma vez mais a Serra da Freita foi o cenário para uma das corridas mais divertidas que por cá se realizam. O vento e o frio foram os melhores incentivos para não parar de correr. Este ano resolvi colar-me desde o início ao grupo da frente para me deixar guiar por entre o planalto da Freita. No primeiro controlo estava em quinto conseguindo recuperar uma posição até ao segundo controlo. Depois da montanha russa do ano passado sabia que teria de seguir um pouco mais pela direita de forma a evitar o vale que atravessa o alinhamento entre o segundo controlo e o marco geodésico de S. Pedro O Velho. Já no caminho para a meta o Miguel Catarino apanha-me e seguimos juntos até ao final da prova.

Freedoooooommmmmmmm………!

UTAM 2011

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Uns míseros três graus. Era quanto marcava o termómetro do carro quando chegamos a Barcelos. A névoa ajudava a dar um toque místico à coisa. Às oito e pouco era dada a partida e foi com algum alívio que comecei a sentir o corpo a aquecer. O programa das festas para hoje consistia num passeio pelo monte com cerca de 52K pelo que seria necessário seguir a um ritmo que me permitisse chegar à meta com um mínimo de dignidade. Ainda não tinha chegado ao km 2 e já me tinha despedido do Fofoni. Seguia agora na companhia do Tiago e da Patrícia. Por volta do km 8 deixei-os adiantarem-se. Não me podia entusiasmar pois a procissão ainda mal tinha começado e ainda era muito cedo para começar a bufar.

No final da primeira subida os horizontes alargaram-se. Ao longo do percurso ía espreitando alguns dos blocos de granito que salpicavam a paisagem. Se isto fosse em Espinho não havia cristal que não tivesse sido espremido…

Perto do km 15 começou-me a doer a barriga. Nada que me obrigasse a parar mas chata o suficiente para tornar incómodos os impactos das sapatilhas no terreno. Aguenta…

No final de uma descida encontro o Miguel Catarino. Pergunto-lhe se o Fofoni passou há muito? 10 minutos diz-me ele. De duas uma: ou eu vou muito rápido ou ele vai devagar.

A dor de barriga não me larga. Nunca me tinha acontecido estar tanto tempo com dores durante uma corrida. Sentia-me com uma dor de burro versão light. Pode ser que isto passe…

Atravesso o rio Neiva e começo a subir pela margem direita. Sou cercado por uma mancha verde. Um pequeno slide coloca-me na margem oposta. Continuo a seguir junto ao rio. Mais à frente atravesso novamente o rio de pedra em pedra. Isto escorrega… Em poucos minutos aterro no posto de abastecimento. Bolas de berlim! Croissants! Que se lixe a dor de barriga!

Mais um serpenteio por entre o rio e moínhos abandonados e começo novamente a subir. Cruzo-me com um caçador. Com a t-shirt amarela flurescente acho que só me tornarei num alvo se andarem à caça de ovnis.

Upa, upa! O percurso segue agora por uma rampa estilo corta-fogo. O sol a bater nas costas contrasta com o frio sentido de manhã. Sem dúvidas, prefiro o frio.

Não sou grande fã de estradões. Ao fim de algum tempo começo-me a aborrecer com a monotonia do percurso. Prefiro single tracks em que os olhos estão fixos nos próximos 5 metros de caminho e nos quais as sinapses fervilham, não havendo sequer a hipótese de pensar em parar.

Os quilómetros vão-se sucedendo. Uma subida asfaltada rumo ao céu denuncia a chegada ao Monte Facho. A partir daqui acabaram-se as subidas. A dor de barriga não me dá grandes chances de destruir o que resta dos joelhos na descida seguinte.

Aterro no asfalto. Recordo-me que a parte final da prova era feita sem desníveis. 5K to go!

Mal entro na zona dos campos de cultivo entra-me um mosquito para um olho. Só me faltava esta! Na tentativa de retirar o insecto rapidamente me dou conta que tenho os dedos com sal. Continuo a correr parecendo um pirata que acabou de sobreviver a um naufrágio. Ao longe vejo uma ponte. Pelas minhas contas os 52K previstos não vão chegar para ir até à meta. Os rumores dos 54K confirmam-se.

Já no centro de Barcelos ainda andei um bocado perdido. É o que dá correr sem óculos!

Ao longe começo a ver o pórtico da meta. Está feito. 7 horas de prova. 5 horas de dores de barriga que não me deixaram sossegado.

Grande 1/2 Trail Serra d´Arga

A previsão cumpriu-se. O nevoeiro cobria as zonas mais elevadas da serra e o vento fazia-se sentir. Já tinha saudades deste tempo. Sentir as gotas de água bater na cara e ouvir o zumbido das rajadas nos ouvidos. A natureza a servir-se dos seus elementos para fazer-nos sentir mais humildes e ao mesmo tempo mais vivos.

O ambiente era de alguma expectativa já que bastava olhar para cima para perceber que o céu nos iria cair em cima.

A corrida arrancou à oitava badalada do sino da igreja de Dem. A subida inicial serviu para acordar as pernas que teimavam em não querer perceber que hoje era dia de corrida.

A organização estava perfeita. Os abastecimentos sucediam-se de uma forma tão rápida que só por causa dos bolicaos e donuts devo ter engordado nesta prova!

O vento aumentava à medida que a cota subia. No início da descida as marcações apontavam uma direcção por entre vegetação rasteira e, poucos metros depois, mostravam o caminho empedrado por onde seguiria o percurso. Depois de calibrada a aderência das sapatilhas foi descer, descer, descer…

Mais à frente o caminho passou a atravessar uma zona arborizada. Seguimos à sombra das árvores que nos protegem do vento.

Finalmente encontro o Âncora. Sinto-me agora em terreno conhecido. Sei que daqui a S. Lourenço da Montaria é um tiro. Quase a chegar à zona dos viveiros vejo o Mark a vir em direcção na direcção contrária. Mais 800 m e termina! , diz ele. Não percebi. Será que existe um controlo à frente e o percurso volta para trás? Não me lembrava deste ir e vir na descrição do percurso. A prova foi cancelada! , dizem-me mais à frente.

Olho para o cimo da serra. Vejo tudo tapado. A Senhora do Minho vai ter de esperar…

Durante o regresso a Dem penso que as condições atmosféricas conferem um certo carácter aos locais. A Freita é um bom exemplo disso. Se em Espinho está a chuviscar na Freita não se vê boi…

Penso também que a profecia acabou por se cumprir…

Para o Carlos Sá e toda a organização da prova um muito obrigado pelo empenho demonstrado e, acima de tudo, pela coragem em cancelar a prova. O mais fácil seria deixar a coisa rolar e, bem ao nosso estilo, esperar que tudo corresse bem. Penso que ninguém saiu da Serra d´Arga com a sensação de tempo perdido. Muito pelo contrário, o desejo de voltar penso ser geral.

K42 Portugal

O plano era simples. Ir nas calmas até ao km 14, rolar até aos 37 e aproveitar a descida final para recuperar algum tempo. Sem stress.

Nesta prova optei por não levar mochila o que me obrigou a fazer um controlo mais rigoroso das quantidades de água que bebia e a focalizar-me no abastecimento seguinte de forma a gerir as reservas.

Foto: Sérgio Azenha

Foto: Sérgio Azenha

Até ao km 30 tive a companhia do Nélson e do Bruno Arteiro. Nas zonas menos técnicas prefiro correr acompanhado já que podemos ir-nos puxando uns aos outros mantendo um ritmo mais ou menos constante. Quando entramos no downhill, aí prefiro soltar as pernas e deixar-me levar pela adrenalina e assistir ao festival de sinapses que ocorre nas profundezas da mente.

Foto: Sérgio Azenha

No final, a coisa até correu bem. 06:46:19, 29º da geral. Melhor do que a classificação foi ter chegado à meta em condições de ainda me sentir capaz de enfiar mais uns 30 km nas pernas. OK, já sei que não me derreti o suficiente. Mas também há ainda menos de um ano estive na Patagónia ; )

Foto: AXTrail

A organização esteve, como vem sendo hábito, excelente. Apenas um reparo: o melão dos abastecimentos atrasou-me, à vontade, uns cinco minutos!

Provas no Peru

Durante as férias no Peru participei em várias provas. Gastronómicas, claro!

Dos países que já visitei o Peru foi aquele em que, de uma forma geral, melhor comi. Desde os restaurantes top dos mundialmente conhecidos chefes Gastón Acurio e Rafael Osterling até aos restaurantes de beira de estrada nota-se um cuidado muito especial na forma como os pratos são confeccionados e apresentados.

Desde que o Gastón Acurio alcançou o reconhecimento mundial houve uma espécie de boom que fez com que, por exemplo, só em Lima fossem criadas 22 escolas de hotelaria!

A nova cozinha andina caracteriza-se por ser uma fusão de sabores europeus, predominantemente italianos, asiáticos, fruto da influência da comunidade japonesa e uma multiplicidade de sabores dos produtos locais, que vão desde frutos da floresta amazónica até aos peixes das águas do Pacífico.

Se forem para aqueles lados não deixem de visitar os restaurantes Chicha ou Tanta do Gastón Acurio. De certeza que não se arrependem!

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Lost City of The Incas

Não resisti. Comprei mais um livro. Lost City of The Incas, escrito por Hiram Bingham, o americano que descobriu Machu Picchu. Publicado pela primeira vez em 1952 este livro relata, na primeira pessoa, todo o processo de descoberta e exploração arqueológica realizada em Machu Picchu.

É um misto de literatura de viagem com romance histórico. O estilo é empolgante e envolvente. Estou ainda no início desta aventura. Desculpa lá Karnazes mas o Run vai ter de esperar…

Going down!

O dia começou cedo. Saí de Águas Calientes e fiz a subida até Machu Picchu a pé. Demorei um pouco mais que uma hora mas foi o suficiente para chegar a pingar. Apesar de ser muito cedo a temperatura deveria rondar os 18 graus. A humidade, essa sim, deveria andar nos 80%.

Depois, conforme planeado, subi com a Vanessa ao Wayna Picchu. Já sentia os gémeos. Bom sinal. Baixamos até Machu Picchu. A Vanessa apanhou o bus até Águas Calientes. Eu iria aproveitar para enfiar mais alguns quilómetros nas pernas.

Preferi baixar pelo estradão por onde sobem e descem os autocarros de acesso a Machu Picchu. Segundo o guia a distância por estrada até Águas Calientes era de 7 km (na realidade foram 9 km). Se baixasse pelo caminho por onde havia subido de manhã iria percorrer uma distância menor e iria destroçar os joelhos.

Assim, foi sempre a descer… Para a frente e para trás…

De vez em quando lá passava por mim um autocarro. Numa das curvas, tal era o zigzag, consegui mesmo ultrapassar um!

Vou olhando para o Putucusi, a elevação à minha frente, e vou observando a diminuição de cota. Está abafado. À minha volta só vejo verde e o estradão de terra batida. Lá em baixo vejo os comboios estacionados no fundo do vale. O barulho das águas bravas do rio Urubamba vai aumentando de volume.

Finalmente aterro em Águas Calientes. Penso na diferença que a altitude provoca no esforço.

PS: escrevo este post no comboio que faz a ligação Águas Calientes – Cusco. No banco ao lado está um casal que, de x em x tempo, vai inalando pequenas porções de Oxi Shot, um spray de inalação com O2 que se vende por aqui nas farmácias. Acho que em algumas provas um shot destes ía saber mesmo bem…

Já anoiteceu. A carruagem está cheia de melgas, pequenos mosquitos e borboletas. A luz do ipad atrai a bicharada. Acho que vou desligar…

Machu Picchu

Uma vez mais Franco apanha-nos no hotel para nos levar até à estação ferroviária de Poroy, a cerca de 20 minutos de Cusco. Às 07:42 partíamos no Expedition 31 em direcção a Machu Picchu. À medida que o comboio se afasta de Cusco a paisagem vai-se tornando cada vez mais montanhosa e verdejante. A linha acompanha o vale por onde flui o Urubamba, sempre a perder altitude. Este rio passa também por Águas Calientes, aka Pueblo de Machu Picchu, indo acabar por desaguar ao Rio Amazonas.

A vista desde o fundo do vale é assombrosa. Sentimo-nos minúsculos ao percorrer este caminho. A vegetação que cobre as escarpas torna impossível a imaginação de uma linha que permita aceder ao cume destas montanhas. Estamos na selva.

Ao fim de três horas de viagem chegamos ao nosso destino. A melhor forma de descrever a chegada a Águas Calientes é imaginar que saem do Vouguinha no meio do recinto da feira de Espinho numa segunda-feira. Nem sequer conseguimos perceber para que lado é que temos de ir tal é a quantidade de toldos, bancas, quinquilharia,… Seguimos sempre em frente na esperança de ir dar a alguma rua. Depois de alguma procura lá encontramos o hotel. O plano das festas para hoje era simples: comer, apanhar o bus para Machu Picchu, perdermo-nos nas ruínas e baixar até Águas Calientes a pé.

Depois de comermos o prato típico de Águas Calientes, pizza, apanhamos o bus que parte de 10 em 10 minutos rumo a Machu Picchu.

O único encanto de Águas Calientes é o facto de não existirem automóveis. Os únicos transportes que cá existem são o comboio e os autocarros ecológicos que fazem a ligação até Machu Picchu. Fora isso temos de olhar para cima para nos apercebermos da magia natural deste local.

Na subida em zigzag pelo estradão começamos a vislumbrar o recorte dos socalcos, bem lá no alto da montanha. Entramos no recinto do complexo arqueológico e ao fim de uma centena metros temos à nossa frente a imagem que nos vem à memória sempre que nos lembramos de Machu Picchu. É verdade. Vale mesmo a pena. Para além das ruínas o que mais impressiona é a localização e a paisagem. As ruínas estendem-se sobre uma cumeada rodeada de um vale encaixado. Lá em baixo o Rio Urubamba rodeia toda esta elevação. Olhando em redor facilmente se percebe que este é um lugar único, acessível apenas aos conhecedores dos caminhos que se ocultam por debaixo desta vegetação.

Decidimos continuar a subir até Intipunko, a Porta do Sol. Para lá chegar percorremos os últimos dois quilómetros do Inca Trail. O percurso é bastante acessível sendo o caminho realizado ao longo de degraus em pedra de dimensões variáveis. É sobre o Inca Trail, parte do caminho de ligação de Machu Picchu a Cusco, com cerca de 43 km de extensão, que se realiza a Inca Trail Marathon. Esta será uma das próximas provas do Kilian Quest.

Desde Intipunko é possível ver toda a extensão do complexo arqueológico. Deve ser uma vista espectacular para quem acaba de correr mais de 40 km acima da cota dos 2000 m.

Regressamos a Machu Picchu para nos perdermos por entre o labirinto de construções que compõem o aglomerado. Entretanto, ouvem-se ao longe os trovões. É altura de baixar.

Apanhamos o caminho que segue para Águas Calintes. Basicamente é uma escadaria em zigzag que nos leva até à cota do rio e daí até Águas Calientes.

Banho. Jantar. Cama.

04:30. O telemóvel desperta. Showtime! Visto-me e calço as sapatilhas. Roubo dois pães do pequeno-almoço ao passar pela entrada do hotel e rapidamente me ponho na rua. Cai uma chuva miúdinha. Não se vê vivalma. Ligo o frontal e sigo pelo estradão de terra batida em direcção a Machu Picchu.

05:00. Passo pelo posto de controle de acessos a Machu Picchu situado antes do atravessamento da ponte. Pedem-me o bilhete de entrada e o passaporte. Tudo OK, siga! Começo a subir devagar pois já conhecia o que me esperava. Pensei que iria encontrar mais pessoas com a mesma ideia que eu tinha: ver o nascer do sol lá em cima. Os ruídos produzidos à noite no interior daquela selva são dignos de qualquer Jurassic Park.

A meio da subida ouço o som de algo a mexer-se algures à minha frente. Que bicho será? Uns segundos depois ouço novamente o mesmo ruído. Olho para cima e vejo um ponto de luz a cintilar na escuridão. Afinal não estou sozinho! Acelero um pouco o passo e vejo tratar-se de uma rapariga com um frontal. Cumprimentamo-nos e continuo a subir. Uns metros mais à frente ultrapasso outros dois gajos. A luz começa agora a querer aparecer. Uma ligeira névoa ajuda a criar uma atmosfera mística.

Chego à entrada do complexo arqueológico e aguardo uns minutos até que as portas se abram. Aos poucos vão chegando outros madrugadores que também fizeram a subida a pé. Os rostos vermelhos são a prova da conclusão deste quebra costas.

As portas do recinto abrem-se e dirijo-me para o local onde combinei o encontro com a Vanessa. Sento-me numa rocha e tento imaginar como seria a vida neste local, isolado de tudo mas ao mesmo tempo rodeado de uma beleza natural única. As ruínas estão desertas. Num par de horas centenas de pessoas irão percorrer estas escadarias.

Entretanto chega a Vanessa. Resolvemos fazer uma visita guiada ao complexo arqueológico enquanto esperamos pelas 11 horas, hora em que teremos acesso ao caminho que nos conduzirá ao Huayna Picchu.

A Vanessa já estava convencida a ir no momento em que resolve perguntar à guia como era o percurso até ao cume. Camino aéreo con cuerdas. Cuerdas? Que cuerdas? Combinamos que caso a coisa começasse a ficar mais complicada ela baixaria e encontrarnos-íamos em Machu Picchu.

Ás 11 horas lá começamos a subir. Step by step. Sem pressas. A vegetação que embrulha o single track disfarça o abismo que nos rodeia. Uma asiática que se encontrava a fazer já a descida patina num degrau e manda um tralho mesmo à nossa frente. A Vanessa arregala os olhos. Isto a descer é que vai ser bonito! – diz ela. Sem stress… – respondo eu.

Continuamos a subir e começamos a vislumbrar os muros das primeiras ruínas. Algumas das escadas são tão íngremes e têm os degraus tão curtos que já utilizamos as mãos para nos equilibrarmos. Algumas das subidas têm cordas fixas de facto. A parte final do caminho passa por dentro de uns blocos de rocha de onde saímos através de escada de madeira. Chegamos! Estamos no topo!
Machu Picchu vê-se agora lá em baixo com as suas ruínas minúsculas. Partilhamos uma banana enquanto contemplamos o vazio que nos circunda.

Começamos a baixar. Como era suposto, agora é que ía ser. Estes incas eram completamente atrofiados. Aos poucos lá fomos destrepando pelos degraus. A Vanessa… concentradíssima sócio!

Fomos descendo devagar até aterrarmos novamente em Machu Picchu. A Vanessa já tinha tido o seu shot de adrenalina pelo que resolveu baixar até Águas Calientes no shuttle. Para aproveitar o facto de estar num local elevado resolvo descer a correr. Tenho de meter kms nestas pernas que a temporada das maratonas está aí a chegar…

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