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Lost City of The Incas

Não resisti. Comprei mais um livro. Lost City of The Incas, escrito por Hiram Bingham, o americano que descobriu Machu Picchu. Publicado pela primeira vez em 1952 este livro relata, na primeira pessoa, todo o processo de descoberta e exploração arqueológica realizada em Machu Picchu.

É um misto de literatura de viagem com romance histórico. O estilo é empolgante e envolvente. Estou ainda no início desta aventura. Desculpa lá Karnazes mas o Run vai ter de esperar…

Going down!

O dia começou cedo. Saí de Águas Calientes e fiz a subida até Machu Picchu a pé. Demorei um pouco mais que uma hora mas foi o suficiente para chegar a pingar. Apesar de ser muito cedo a temperatura deveria rondar os 18 graus. A humidade, essa sim, deveria andar nos 80%.

Depois, conforme planeado, subi com a Vanessa ao Wayna Picchu. Já sentia os gémeos. Bom sinal. Baixamos até Machu Picchu. A Vanessa apanhou o bus até Águas Calientes. Eu iria aproveitar para enfiar mais alguns quilómetros nas pernas.

Preferi baixar pelo estradão por onde sobem e descem os autocarros de acesso a Machu Picchu. Segundo o guia a distância por estrada até Águas Calientes era de 7 km (na realidade foram 9 km). Se baixasse pelo caminho por onde havia subido de manhã iria percorrer uma distância menor e iria destroçar os joelhos.

Assim, foi sempre a descer… Para a frente e para trás…

De vez em quando lá passava por mim um autocarro. Numa das curvas, tal era o zigzag, consegui mesmo ultrapassar um!

Vou olhando para o Putucusi, a elevação à minha frente, e vou observando a diminuição de cota. Está abafado. À minha volta só vejo verde e o estradão de terra batida. Lá em baixo vejo os comboios estacionados no fundo do vale. O barulho das águas bravas do rio Urubamba vai aumentando de volume.

Finalmente aterro em Águas Calientes. Penso na diferença que a altitude provoca no esforço.

PS: escrevo este post no comboio que faz a ligação Águas Calientes – Cusco. No banco ao lado está um casal que, de x em x tempo, vai inalando pequenas porções de Oxi Shot, um spray de inalação com O2 que se vende por aqui nas farmácias. Acho que em algumas provas um shot destes ía saber mesmo bem…

Já anoiteceu. A carruagem está cheia de melgas, pequenos mosquitos e borboletas. A luz do ipad atrai a bicharada. Acho que vou desligar…

Machu Picchu

Uma vez mais Franco apanha-nos no hotel para nos levar até à estação ferroviária de Poroy, a cerca de 20 minutos de Cusco. Às 07:42 partíamos no Expedition 31 em direcção a Machu Picchu. À medida que o comboio se afasta de Cusco a paisagem vai-se tornando cada vez mais montanhosa e verdejante. A linha acompanha o vale por onde flui o Urubamba, sempre a perder altitude. Este rio passa também por Águas Calientes, aka Pueblo de Machu Picchu, indo acabar por desaguar ao Rio Amazonas.

A vista desde o fundo do vale é assombrosa. Sentimo-nos minúsculos ao percorrer este caminho. A vegetação que cobre as escarpas torna impossível a imaginação de uma linha que permita aceder ao cume destas montanhas. Estamos na selva.

Ao fim de três horas de viagem chegamos ao nosso destino. A melhor forma de descrever a chegada a Águas Calientes é imaginar que saem do Vouguinha no meio do recinto da feira de Espinho numa segunda-feira. Nem sequer conseguimos perceber para que lado é que temos de ir tal é a quantidade de toldos, bancas, quinquilharia,… Seguimos sempre em frente na esperança de ir dar a alguma rua. Depois de alguma procura lá encontramos o hotel. O plano das festas para hoje era simples: comer, apanhar o bus para Machu Picchu, perdermo-nos nas ruínas e baixar até Águas Calientes a pé.

Depois de comermos o prato típico de Águas Calientes, pizza, apanhamos o bus que parte de 10 em 10 minutos rumo a Machu Picchu.

O único encanto de Águas Calientes é o facto de não existirem automóveis. Os únicos transportes que cá existem são o comboio e os autocarros ecológicos que fazem a ligação até Machu Picchu. Fora isso temos de olhar para cima para nos apercebermos da magia natural deste local.

Na subida em zigzag pelo estradão começamos a vislumbrar o recorte dos socalcos, bem lá no alto da montanha. Entramos no recinto do complexo arqueológico e ao fim de uma centena metros temos à nossa frente a imagem que nos vem à memória sempre que nos lembramos de Machu Picchu. É verdade. Vale mesmo a pena. Para além das ruínas o que mais impressiona é a localização e a paisagem. As ruínas estendem-se sobre uma cumeada rodeada de um vale encaixado. Lá em baixo o Rio Urubamba rodeia toda esta elevação. Olhando em redor facilmente se percebe que este é um lugar único, acessível apenas aos conhecedores dos caminhos que se ocultam por debaixo desta vegetação.

Decidimos continuar a subir até Intipunko, a Porta do Sol. Para lá chegar percorremos os últimos dois quilómetros do Inca Trail. O percurso é bastante acessível sendo o caminho realizado ao longo de degraus em pedra de dimensões variáveis. É sobre o Inca Trail, parte do caminho de ligação de Machu Picchu a Cusco, com cerca de 43 km de extensão, que se realiza a Inca Trail Marathon. Esta será uma das próximas provas do Kilian Quest.

Desde Intipunko é possível ver toda a extensão do complexo arqueológico. Deve ser uma vista espectacular para quem acaba de correr mais de 40 km acima da cota dos 2000 m.

Regressamos a Machu Picchu para nos perdermos por entre o labirinto de construções que compõem o aglomerado. Entretanto, ouvem-se ao longe os trovões. É altura de baixar.

Apanhamos o caminho que segue para Águas Calintes. Basicamente é uma escadaria em zigzag que nos leva até à cota do rio e daí até Águas Calientes.

Banho. Jantar. Cama.

04:30. O telemóvel desperta. Showtime! Visto-me e calço as sapatilhas. Roubo dois pães do pequeno-almoço ao passar pela entrada do hotel e rapidamente me ponho na rua. Cai uma chuva miúdinha. Não se vê vivalma. Ligo o frontal e sigo pelo estradão de terra batida em direcção a Machu Picchu.

05:00. Passo pelo posto de controle de acessos a Machu Picchu situado antes do atravessamento da ponte. Pedem-me o bilhete de entrada e o passaporte. Tudo OK, siga! Começo a subir devagar pois já conhecia o que me esperava. Pensei que iria encontrar mais pessoas com a mesma ideia que eu tinha: ver o nascer do sol lá em cima. Os ruídos produzidos à noite no interior daquela selva são dignos de qualquer Jurassic Park.

A meio da subida ouço o som de algo a mexer-se algures à minha frente. Que bicho será? Uns segundos depois ouço novamente o mesmo ruído. Olho para cima e vejo um ponto de luz a cintilar na escuridão. Afinal não estou sozinho! Acelero um pouco o passo e vejo tratar-se de uma rapariga com um frontal. Cumprimentamo-nos e continuo a subir. Uns metros mais à frente ultrapasso outros dois gajos. A luz começa agora a querer aparecer. Uma ligeira névoa ajuda a criar uma atmosfera mística.

Chego à entrada do complexo arqueológico e aguardo uns minutos até que as portas se abram. Aos poucos vão chegando outros madrugadores que também fizeram a subida a pé. Os rostos vermelhos são a prova da conclusão deste quebra costas.

As portas do recinto abrem-se e dirijo-me para o local onde combinei o encontro com a Vanessa. Sento-me numa rocha e tento imaginar como seria a vida neste local, isolado de tudo mas ao mesmo tempo rodeado de uma beleza natural única. As ruínas estão desertas. Num par de horas centenas de pessoas irão percorrer estas escadarias.

Entretanto chega a Vanessa. Resolvemos fazer uma visita guiada ao complexo arqueológico enquanto esperamos pelas 11 horas, hora em que teremos acesso ao caminho que nos conduzirá ao Huayna Picchu.

A Vanessa já estava convencida a ir no momento em que resolve perguntar à guia como era o percurso até ao cume. Camino aéreo con cuerdas. Cuerdas? Que cuerdas? Combinamos que caso a coisa começasse a ficar mais complicada ela baixaria e encontrarnos-íamos em Machu Picchu.

Ás 11 horas lá começamos a subir. Step by step. Sem pressas. A vegetação que embrulha o single track disfarça o abismo que nos rodeia. Uma asiática que se encontrava a fazer já a descida patina num degrau e manda um tralho mesmo à nossa frente. A Vanessa arregala os olhos. Isto a descer é que vai ser bonito! – diz ela. Sem stress… – respondo eu.

Continuamos a subir e começamos a vislumbrar os muros das primeiras ruínas. Algumas das escadas são tão íngremes e têm os degraus tão curtos que já utilizamos as mãos para nos equilibrarmos. Algumas das subidas têm cordas fixas de facto. A parte final do caminho passa por dentro de uns blocos de rocha de onde saímos através de escada de madeira. Chegamos! Estamos no topo!
Machu Picchu vê-se agora lá em baixo com as suas ruínas minúsculas. Partilhamos uma banana enquanto contemplamos o vazio que nos circunda.

Começamos a baixar. Como era suposto, agora é que ía ser. Estes incas eram completamente atrofiados. Aos poucos lá fomos destrepando pelos degraus. A Vanessa… concentradíssima sócio!

Fomos descendo devagar até aterrarmos novamente em Machu Picchu. A Vanessa já tinha tido o seu shot de adrenalina pelo que resolveu baixar até Águas Calientes no shuttle. Para aproveitar o facto de estar num local elevado resolvo descer a correr. Tenho de meter kms nestas pernas que a temporada das maratonas está aí a chegar…

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